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No âmbito do BLACK HISTORY MONTH em que é reservado o mês de Fevereiro para divulgação, análise e reflexão em torno da contribuição do povo preto para o desenvolvimento universal, e antes da apresentação no nosso site das grandes contribuições tidas pelo povo egípcio, disponibilizamos abaixo uma sugestão de leitura por intermédio do Professor Yele Nkenge Shemu-Hotep Likanisi** (Coordenador do Conselho Científico da Universidade Hip Hop) que de certeza irá desconstruir a ideia de que os feitos do antigo Egipto não estão relacionados com a história do continente Africano.

 

 

A Antiguidade Africana pela Imagem *

[…] se é fato que só a verdade é revolucionária,
deve-se acrescentar que só um rapprochement
realizado com base na verdade será duradouro.
Não se contribui para a causa do progresso humano
lançando um véu sobre os fatos.
Cheikh Anta Diop

É bem sabido que as concepções distinguem os cientistas – em particular os
historiadores –, e levam-os a brotarem escolas científicas guiadas por certos paradigmas
muitas das vezes contrárias umas às outras, mas esta questão não é o maior problema
do conhecimento científico, porque o grande problema reside no facto de alguns
cientistas – conscientemente – romperem com o ‘‘princípio da cientificidade’’ e
deturparem o conhecimento científico para o benefício de um determinado grupo de
pessoas, uma nação; agindo parcialmente sem medir as consequências que daí advém.

Foi precisamente este espírito pseudo-científico que havia enrolado a História e
civilizações negro-africanas na teia eurocêntrica sustentada por ‘‘factos’’ falsificados com
a finalidade de apagar das memórias, a real História da África e arrancar dos Negros o
seu legado magistral.

*DIOP, Cheikh Anta. L’Antiquité Africaine par L’Image. Deuxième édition. Présence Africaine
Éditions. Paris: 1998.

 

**Pseudónimo de Yele Kengue Geraldo (Papá Yele). Bacharel em Ensino de História pelo
Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED), de Luanda. Fundador/líder do Movimento
Pan-Africanista Makanisi e Coordenador do Conselho cientifico da Universidade Hip Hop.

 

*DIOP, Cheikh Anta. L’Antiquité Africaine par L’Image. Deuxième édition. Présence Africaine
Éditions. Paris: 1998

Negativas acções do género emergiram por volta do século XVI – durante uma
fase muito difícil para o continente Berço -, e apesar das derrotas que têm sofrido nos
últimos anos cada vez que os actuais pesquisadores (sérios) desmistificam-as, ainda são em parte perpetuadas pelos pseudo-cientistas envenenados pelos mitos paridos por F. Hegel, A. Gobineau, C. Lévi-Strauss e tantos outros racistas que brotavam teorias falaciosas para ‘‘justificarem’’ os actos bárbaros cometidos por alguns países da Europa contra a África e os seus povos. A mentira vem a passos acelerados e expande-se com muita facilidade, mas quando a verdade emerge – mesmo de forma lenta – liberta mentes, revoluciona almas e dá duros golpes contra tudo o que foi sustentado pelos pilares da mentira; o eurocentrismo não escapou destes golpes revolucionários. Contudo,
a segunda metade do século XX, foi a grande fase das lutas pelas liberdades dos povos oprimidos da África, lutas estas que se alargaram até ao campo científico, e sem sombra de dúvidas o Professor Cheikh Anta Diop (1923-1986)1 – historiador, químico, antropólogo, egiptólogo, linguista, físico nuclear e político senegales – foi um dos eminentes cientistas e militantes pan-africanistas que mais se destacou neste campo, onde com mestria, erudição, imparcialidade e guiado pelo espírito de cientificidade colocou certos paradigmas eurocentricos em crise, devolvendo para os africanos a sua real História e o seu legado que durante séculos foi ‘‘roubado’’ e atribuido injustamente à outros povos antigos (mesopotâmicos, gregos, romanos, etc.) e modernos. Esta é uma luta que ainda continua, pelo triunfo da verdade científica e do renascimento africano. Portanto, é precisamente pelo seu carácter revolucionário que a presente obra
iconográfica do Professor Diop foi escolhida e apresentada aqui para o leitor, pois nela o
autor traz várias imagens de diferentes fontes arqueológicas e faz análises das mesmas a fim de responder certas problemáticas sobre a História da África e não só (que em breve apresentaremos), com o objectivo de permiti-lo entrar em contacto com os conteúdos científicos não apresentados pelos manuais académicos escritos com base nos paradigmas eurocentricos. Conhecer a verdade, mas recusar-se de divulgá-la, é um dos
piores erros que se deve evitar sempre, mesmo que ela (a verdade) não agrade a
todos(as) ou fere algumas almas.

 

A primeira edição desta obra foi publicada em 1976, Dakar/Senegal, pelo IFAN/Université de Dakar e NEA/Nouvelles Éditions Africaines, em língua francesa. A
segunda edição (a edição que foi consultada para a elaboração desta apresentação) foi
publicada em 1998, Paris/França, pela editora Présence Africaine, em quatro línguas: Francês, Wolof, Peul e Inglês.
Nesta obra, o autor aborda sobre algumas problemáticas que ainda animam debates no seio da massa académica, tais como: Qual é a primeira ‘‘raça humana’’? De
quê ‘‘raça’’ foram os egípcios da época faraónica? Há ou não uma unidade cultural
entre o Antigo Egipto e o resto da África Negra? Quê papel desempenhou o
pensamento egípcio no surgimento do Judaismo, Cristianismo e Islamismo? É possível encontrar actualmente na África Negra línguas com maior grau de parentesco com o egípcio antigo? Qual foi o legado egípcio no campo das artes, ciências e literatura? Por meio de imagens oriundas de fontes arqueológicas e análises das mesmas, o Professor Diop responde tais problemáticas em nove capítulos, a saber:
 

1. Evolução do mundo negro da Pré-História ao fim da Antiguidade;
2. Pré-História e Proto-História do Antigo Egipto;
3. Características físicas dos faraós;
4. Características físicas do povo egípcio;
5. Estatuto político e social dos leucodermos no Egipto faraónico;
6. Parentesco cultural entre o Antigo Egipto e o resto da África Negra actual;
7. Origem negro-egípcia de alguns conhecimentos fundamentais das religiões monoteistas;
8. O carácter racional da arte e arquitectura egípcia;
9. Parentesco entre a Língua egípcia e o Wolof, e o legado egípcio nos campos das artes, literatura e ciências.

É do nosso conhecimento que a África é o ‘‘Berço da Humanidade’’ – algo
anteriormente contestado pelos poligenéticos -, mas que cada vez mais tem sido confirmado pelas recentes pesquisas em vários campos do conhecimento científico (Paleontologia, Antropologia; só para citar alguns). E em torno disto há uma problemática que sempre perturbou as mentes, é precisamente a questão da primeira ‘‘raça’’ dos seres humanos, tendo em conta o universo de diferentes ‘‘raças’’ que hoje se contempla. Esta questão foi um dos problemas que durante anos animou os debates entre os monogenéticos e poligenéticos, mas as provas científicas actuais têm confirmado cada vez mais os resultados já adiantados pelos monogenéticos. Então qual é a resposta do Professor Diop sobre esta questão? Por outro lado, durante anos, a egiptologia champolliana havia arrancado da África o Antigo Egipto, apresentando – utopicamente – a Mesopotâmia como o seu berço, daí que todo o seu legado foi negado aos seus legítimos proprietários; isolou-se o Antigo Egipto e negou-se a origem comum e unidade cultural que a mesma tem com as restantes nações da África Negra, que é o seu real berço. Por tanto, recuperar o Antigo Egipto e retribui-lo ao seu real berço africano foi um dos desafios enfrentados pelo Professor Diop e outros intelectuais, e nesta obra, podemos contemplar algumas das provas arqueológicas que em conjunto
com outros dados vindos de outras fontes sérias de diferentes naturezas sustentam as teses da escola cheikhantaniana.

Leituras complementares
I. Sobre a vida e obras do Cheikh Anta Diop
Antoine, Y. INVENTORES E SÁBIOS NEGROS. Editorial Nzila. Luanda: 2009. Tradução
de Anabela Primo.
Ela, J. M. CHEIKH ANTA DIOP OU A HONRA DE PENSAR. Edições Mulemba e Edições
Pedago. Luanda: 2014. Tradução de Narrativa Traçada.
Keita, B. N. CHEIKH ANTA DIOP. Contribuição Endógena para a Escrita da História do Continente. Editorial Nzila. Luanda: 2008.
Obenga, T. CHEIKH ANTA DIOP, VOLNEY ET LE SPHINX. Présence Africaine. Paris: 1978.
II. Sobre as questões abordadas na obra apresentada
Altuna, R. R. A. CULTURA TRADICIONAL BANTU. Paulinas. Luanda: 2006.
Davidson, B. À DESCOBERTA DO PASSADO DA ÁFRICA. Sá da Costa Editora. Lisboa:
1978.
Diop, B. M. e Dieng D. (Org.). A CONSCIÊNCIA HISTÓRICA AFRICANA. Edições
Mulemba e Edições Pedago. Luanda: 2014. Tradução de Narrativa Traçada.
Diop. C. A. A UNIDADE CULTURAL DA ÁFRICA NEGRA. Edições Mulemba e Edições
Pedago. Luanda: 2014. Tradução de Sílvia Cunha Neto.
Diop. C. A. L’ANTIQUITÉ AFRICAINE PAR L’IMAGE. Deuxième édition. Présence
Africaine Éditions. Paris: 1998.
Diop. C. A. NATIONS NÈGRES ET CULTURE. Quatrième Édition. Présence Africaine.
Paris: 1979.
HISTÓRIA GERAL DA ÁFRICA. Volume I. Metodologia e Pré-História da África. 3.ª
Edição. Cortez Editora/UNESCO. São Paulo: 2011. Editor Joseph Ki-Zerbo.
Tradução de MEC – Centro de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade Federal
e São Carlos.
HISTÓRIA GERAL DA ÁFRICA. Volume II. África Antiga. 3.ª Edição. Cortez
Editora/UNESCO. São Paulo: 2011. Editor Gamal Mokhtar. Tradução de MEC –
Centro de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade Federal de São Carlos.
Hublin. J. J. e Seytre, B. NO TEMPO EM QUE OUTROS HOMENS VIVIAM NA TERRA.
Novas Perspectivas Sobre as Nossas Origens. Publicações Europa-América. Mem
Martins: 2009. Tradução de Pedro Carvalho.
Keita. B. N. HISTÓRIA DA ÁFRICA NEGRA. Síntese de História Política e de Civilizações.
Texto Editores. Luanda: 2009.
Ki-Zerbo, J. HISTÓRIA DA ÁFRICA NEGRA. Volume I. 4.ª Edição. Publicações Europa –
América. Mem Martins: 2009. Tradução de Américo de Carvalho.
Makgoba, M. W. (Org.). RENASCENÇA AFRICANA: A Nova Luta. Edições Mulemba e Edições Pedago. Luanda: 2015. Tradução de Narrativa Traçada.
M’Bokolo, E. ÁFRICA NEGRA. História e Civilizações até ao Século XVIII. Volume I. 2.ª Edição. Edições Colibri. Lisboa: 2012. Tradução de Alfredo Margarido.
Mudimbe. V. Y. A IDEIA DE ÁFRICA. Edições Mulemba e Edições Pedago. Luanda: 2013.
Tradução de Narrativa Traçada.
Obenga, T. O SENTIDO DA LUTA CONTRA O AFRICANISMO EUROCENTRISTA. Edições
Mulemba e Edições Pedago. Luanda: 2013. Tradução de Manuel F. Ferreira.
Wildung. D. O EGIPTO DA PRÉ-HISTÓRIA AOS ROMANOS. Taschen. Lisboa: 2009.
Tradução de Maria F. Duarte. (Obra de arquitectura do Antigo Egipto).

1 comment

  • Fevereiro 16, 2017

    Yeah!!! Muito bem, mais conhecimento afrikano nas nossas vidas para que tenhamos o espírito de pertença dos nossos costumes e valores (afro)… Áfrika unida e sábia jamais será dominada…

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